Identificação do paciente: AMC, sexo masculino, 68 anos, casado, sapateiro aposentado e atualmente é dono de um bar.
Resumo da história clínica: O paciente é sedentário, portador de Diabetes descompensada, e HAS controlada. Para o controle da hipertensão arterial faz uso regular de Captopril 25mg, 6 comp. ao dia; Hidroclorotiazida 25mg, 1 comp. pela manhã; Losartana 25 mg, 1 comp. pela manhã. Não adere ao tratamento para controle da Diabetes, pois usa Glibenclamida 5 mg, 2 copm. pela manhã e 1 comp. à tarde, mas não usa Metiformina, apesar deste medicamento ter sido prescrito.
Em relação à alimentação, o paciente e sua esposa relatam uma dieta hipossódica, porem hipercalórica. Segundo a esposa, AMC estando em seu comércio, abusa da ingesta de doces e alimentos gordurosos.
AMC tem uma história pregressa de dois AVCs, que deixaram com sequela uma discreta paralisia da hemiface direita. Há aproximadamente 20 anos teve uveíte com perda de grande parte da acuidade visual em um olho. Em um passado distante, não soube precisar quando, teve úlcera duodenal. Depois dos AVCs tornou-se temeroso quanto a sua HAS, motivo pelo qual, segundo a acompanhante, AMC segue a risca as prescrições para o controle da HAS.
Foi prescrito ao paciente AMC o uso diário de AAS (ácido acetilsalicílico) 100mg, 1 comp pela manhã. A discussão é: quais as propriedades farmacológicas do AAS? A prescrição desse medicamento a uma paciente com história clínica como a de AMC é correta?
# Farmacologia
inibição irreversível da ciclooxigenase (COX -1 e COX-2), envolvida na síntese das prostaglandinas.
Devido a sua ação inibitória sobre COX-1, o ácido acetilsalicílico bloqueia a síntese do tromboxano A2 nas plaquetas, inibindo a agregação plaquetária e reduzindo a vasoconstrição.
# Prescrição
Diabetes mellitus e HAS são fatores de risco para o desenvolvimento de doença aterotrombótica, especialmente cardíaca. Diversos estudos demonstraram que é possível reduzir o risco de doenças cardiovasculares na população de diabéticos e hipertensos através de estratégias preventivas. Mudanças nos hábitos de vida, como dieta pobre em carboidratos, redução de peso e prática regular de atividade física, devem ser instituídas. Todo paciente de alto risco ou com evidências de doença cardiovascular deve manter sua glicemia < 100 mg/dl e A1c < 7%. É recomendado uso diário de AAS em doses baixas e estatinas para controle de lípides, tendo como alvo LDL < 100 mg/dl, HDL > 50 mg/dl e triglicerídios < 150 mg/dl. O controle da pressão arterial deve ser buscado com medidas não farmacológicas e anti-hipertensivos, sendo inibidores do sistema renina-angiotensina indicados na maioria dos casos, especialmente naqueles pacientes com nefropatia, associado a diuréticos tiazídicos na sua maioria para alcançar níveis tensionais-alvo < 130/80 mmHg.
Recomendação
Pacientes com diabetes possuem uma variedade de alterações na função plaquetária que predispõem à agregação plaquetária e à síntese de tromboxane. O uso de aspirina (AAS) tem sido recomendado como prevenção primária e secundária de eventos cardiovasculares em pacientes diabéticos. Uma meta-análise envolvendo número expressivo de ensaios clínicos demonstrou a eficácia da aspirina em reduzir eventos cardiovasculares com taxas de redução e 30% de IAM e 20% de AVC. A AAS parece ser mais efetiva do que outros agentes antiplaquetários. Não há evidências que suportem nenhuma dose específica, a maioria dos estudos utiliza doses entre 80 e 325 mg/dia, sendo consenso utilizar a menor dose possível para limitar os efeitos adversos. Pacientes que não tolerarem o uso de AAS devem substituir por outro agente antiplaquetário como clopidogrel. Os agentes antiplaquetários não devem ser utilizados em pacientes com história recente de sangramento gástrico ou insuficiência renal e hepática importantes. AAS está contraindicado em pacientes < 21 anos pelo risco aumentado de desenvolver Síndrome de Reye.
Baixas doses de AAS (80 a 325 mg/dia) estão indicadas a todos os pacientes com diabetes e evidências de doença cardiovascular, e naqueles sem doença estabelecida, mas com outros fatores de risco (história familiar de DAC, hipertensão, tabagismo, dislipidemia e albuminúria).
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